quarta-feira, 14 de março de 2012

a cidade e eu (2)

again the last ebb
the dead shingle
the turning then the steps
toward the lighted town
Beckett


A fita de veludo, que prendia um medalhão antigo ao pescoço de Isabel, me fascinou por alguns segundos. Desviei os olhos para o prato, já servido, e percebi que perdera a fome. Ao levantar de novo a cabeça, ocorreu-me formular algumas perguntas, possivelmente as mesmas que fizera à minha segunda mulher, naquela noite, no restaurante. Desisti, preocupado em redescobrir uma cidade que se perdera na minha memória.
Murilo Rubião


Lugar de felicidade numa vida cotidiana miraculosa e maravilhosamente transformada. (...) A cotidianidade parece um conto de fadas. "Deixar seu casaco no vestiário da entrada e, mais leve, dar suas caminhadas após ter deixado as crianças no jardim da infância da galeria, encontrar os amigos, tomarem juntos um drink no bar"... E eis a imagem realizada da alegria de viver. (...)Eis o contexto, o palco, o dispositivo de sua felicidade. Se você não souber aproveitar a ocasião de pegar a felicidade que lhe é oferecida para fazer dela a sua felicidade é que... Inútil insistir!
Lefebvre - o direito à cidade


Strange days have found us
Strange days have tracked us down
They're going to destroy
Our casual joys
We shall go on playing
Or find a new town

Strange eyes fill strange rooms
Voices will signal their tired end
The hostess is grinning
Her guests sleep from sinning
Hear me talk of sin
And you know this is it

Strange days have found us
And through their strange hours
We linger alone
Bodies confused
Memories misused
As we run from the day
To a strange night of stone

domingo, 5 de dezembro de 2010

o outro suplício

Não digo que fulano ou sicrano se darão conta disso; mas tal é o caráter desse amanhã que o simples lapso de tempo não pode nunca fazer raiar. A luz que ofusca nossos olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Mais dia está por raiar. O sol não passa de uma estrela matutina.
Thoreau


O amanhã ao que a ocupação cotidiana sempre atende é o eternamente ontem.
Heidegger




















Leminski



If a man does not keep pace with his companions, perhaps it is because he hears a different drummer. Let him step to the music which he hears, however measured or far away.
(...)
I do not say that John or Jonathan will realize all this; but such is the character of that morrow which mere lapse of time can never make to dawn. The light which puts out our eyes is darkness to us. Only that day dawns to which we are awake. There is more day to dawn. The sun is but a morning star.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

sair

Enfim, provavelmente é preciso ter visto tudo, inclusive o socorro, para ter um quadro completo dos recursos do planeta deles. Deixei-me descambar para o fundo da vala. Devia ser primavera, uma manhã de primavera.
Beckett - molloy


O que neles há de essencial não é o fato de quererem caminhar "para trás", mas, antes, o quererem ir-se embora. Um pouco mais de força, de vôo, de coragem, de arte, e eles quereriam ir para além de tudo isso.
Nietzsche - para além do bem e do mal

















Tansey

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

criar

(...) o senhor escute, me escute mais do que eu estou dizendo; e escute desarmado.
Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas


A linguagem é o meu esforço humano.
Clarice























Magritte

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

frio

(...) no momento em que suas cerimônias me persuadiam de que nada existe sem razão e de que cada um, do maior ao menor, possui seu lugar marcado no Universo, minha razão de ser, quanto a mim, se me subtraía, eu descobria de pronto que não contava para nada e sentia vergonha de minha presença insólita nesse mundo em ordem.
Sartre - as palavras


Será que para quem estava acostumado aquilo não causava de nenhuma maneira o mesmo efeito que a mim, aqueles amontoados de matéria e de cubículos comerciais? aquelas organizações de criaturas ao infinito? Para eles talvez fosse a segurança, todo aquele dilúvio em suspenso, ao passo que para mim nada mais era do que um abominável sistema de imposições, com tijolos, corredores, fechaduras, guichês, uma tortura arquitetural gigantesca, inexpiável.
Céline - viagem ao fim da noite


No nível da significação a ordem institucional representa um escudo contra o terror. (...) O universo simbólico defende o indivíduo do supremo terror, outorgando uma legitimação fundamental às estruturas protetoras da ordem institucional.
Berger; Luckmann - a construção social da realidade




(The Byrds cover)

Eight miles high
And when you touch down
You'll find that it's
Stranger than known

Signs in the street
That say where you're goin'
Are somewhere
Just being their own

Nowhere is
There warmth to be found
Among those afraid
Of losing their ground

Rain gray town
Known for its sound
In places
Small faces unbound

Round the squares
Huddled in storms
Some laughing
Some just shapeless forms

Sidewalk scenes
And black limousines
Some living
Some standing alone

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

a cidade e eu

Quando entro numa via pública, abro a boca, deixo bolhas de sabão saindo dela e não a fecho mais. Acompanho essa língua, passo diário. Zzz. Ponho-me no automático, até curvas faço sem as mãos. Às vezes piso demais e acerto alguma placa, destruo muros. Quando, sem querer, escapo do chão e levanto voo, agarro num poste. Meu médico, um pessimista, não concorda, mas creio que melhoro aos poucos. Zzz. Comendo romanos como um romano. A verdade é que emagreço: sem culpa alguma, o apetite raramente não acaba no cardápio. Ao menos ainda conservo essa deselegância. Venho aprendendo, desde a infância, que certas roupas e silêncios certos fazem bem à saúde tanto quanto esquecer de sorrir pode ser humilhante, por isso a terapia que me receitaram perverti num hábito noturno de crocitar baixo.
Mais uns anos grasnando e emagrecendo, podem me trocar por uma escultura contemporânea sem que eu mesmo perceba diferença. É mais provável que antes canse de mim mesmo. Daí me demito novamente, porque não permito piedades, a não ser as da ironia. Como da vida não tiro mais que ásperas miragens, serve de consolo deixar os investimentos pra trás e sair ambíguo. Muito tempo pra nada, pouco tempo pra tudo. Quando quiser me aposentar, escondo minha cabeça num buraco – quem sabe não ajude a acabar com as rugas...

Perguntei ridículo
Com o pé no estribo:
Servirá o remendo
Do vermelho gemido?
Chegará o tempo
Do dourado trigo?
Perguntei ridículo
Com o pé no estribo



A única coisa que se deveria fazer era acomodar-se à situação tal como se apresentava. Mesmo quando fosse possível melhorar alguns pormenores – o que, porém, era uma louca ilusão – no melhor dos casos apenas se teria obtido algo que poderia valer para os futuros processos, enquanto o sujeito se teria prejudicado incalculavelmente ao chamar sobre si a especial atenção dos funcionários e despertar neles um rancoroso desejo de vingança. Não! Era preciso não chamar a atenção! Era preciso comportar-se com serenidade mesmo quando se estivesse a ponto de ficar louco. Era necessário procurar compreender que esse grande organismo de justiça era de certo modo eterno em suas flutuações, que se alguém pretendia mudar nele alguma coisa era como tirar-se ele próprio o solo de sob os seus pés e que ele mesmo é que se precipitava na queda enquanto o grande organismo, vendo-se apenas muito ligeiramente afetado por isso, conseguiria facilmente uma peça de reposição (sempre dentro de seu mesmo sistema) e permaneceria imutável, se não acontecia que – e isto era até o mais verossímil – se tornava ainda mais fechado, ainda mais atento a tudo o que acontecia, ainda mais severo, ainda pior.
Kafka - o processo

em baixo do tapete

Afinal, isto bem me contentaria, se eu conseguisse persuadir-me que esta teoria não é o que é, um complexo barulho que faço aos ouvidos da minha inteligência, quase para ela não perceber que, no fundo, não há senão a minha tristeza, a minha incompetência para a vida.
Pessoa


Esta vida parece insuportável; uma outra, inalcançável. Não há mais vergonha em se desejar morrer; pede-se apenas o deslocamento da velha cela, que se odeia, para uma nova, a qual no devido tempo se aprenderá a odiar.
Kafka


Nature's first green is gold
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.
Robert Frost