quarta-feira, 16 de março de 2022

perguntar

La [...] pura sensación en el niño se transforma en problema y pregunta, en conciencia interrogante: ¿qué  somos y cómo realizaremos eso que somos?
Octavio Paz


Perguntar é carecer cabalmente.
Kovadloff - O silêncio primordial


Para que o ser humano possa questionar, é preciso que [...] seu ser seja transitado pelo nada.
Sartre - O ser e o nada


Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos.
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

murmúrio, exterior (2)

Para ver as coisas, devemos, primeiramente, olhá-las como se não tivessem nenhum sentido: como se fossem uma advinha.
Ginzburg - Olhos de madeira


Ser prisioneira de um dia de extrema claridade.
Llansol


   

secrets and lies
I’m nearsighted
been fading too long
 
there’s spots in my eyes 
it's taken my sight away
I squint thru a fuzzy day
descriptions are loose since I've been staring at the sun
things ain't what they seem
I'm rampant with pareidolia
 
doctor my eyes 
they keep telling lies 


domingo, 22 de novembro de 2020

terra

Para nascer, pouca terra; para morrer, toda a terra.
Antônio Vieira
 
 
Na modorra das tardes vadias na fazenda, era num sítio lá do bosque que eu escapava aos olhos apreensivos da família; amainava a febre dos meus pés na terra úmida, cobria meu corpo de folhas e, deitado à sombra, eu dormia na postura quieta de uma planta enferma vergada ao peso de um botão vermelho; que urnas tão antigas eram essas liberando as vozes protetoras que me chamavam da varanda? (meu sono, quando maduro, seria colhido com a volúpia religiosa com que se colhe um pomo).
Raduan Nassar - Lavoura Arcaica


Vivo no cimo dum outeiro
Numa casa caiada e sozinha,
E essa é a minha definição.
Alterto Caeiro
 
 



When I pass through the leg high grass, I shall die
Under the jasmine, I shall die
In the elder tree
I need not try to prepare for a new coming day
Where is it that fills the deepness I feel?
 
...how could I hide from top to foot
That I lost something in the hills
I lost something in the hills
Oh, I lost something in the hills

sábado, 31 de outubro de 2020

frio (3)

dai-me flores
quaisquer flores
à solidão de se viver entre obras amenas
por cima das quais o pulso continua,
sobrevive à fraca sutura
de gestos gastos
  
sejam essas as flores que me deis
à altura que me separa 
de desenhos que não desejo mais fazer
 
às bocas preteridas,
em nome de quem me retiro destas cadeiras para sempre
 
mas então,
que hei de viver,
se a terra fresca 
e o corpo vermelho
jazem atrás de dias gastos?
 
dai-me flores,
logo que sejam amplas
com que fazer o tamanho do viver

 


What’s in the brain that ink may character
Which hath not figured to thee my true spirit?
What’s new to speak, what new to register,
That may express my love or thy dear merit?
Nothing, sweet boy; but yet, like prayers divine,
I must each day say o’er the very same,
Counting no old thing old, thou mine, I thine,
Even as when first I hallow’d thy fair name.
[...]
Shakespeare


... le pur bonheur de passer de la nuit de la possibilité au jour de la présence.
Blanchot - La part du feu


À qui me louer? Quelle bête fault-il adorer? Quelle sainte image attaque-t-on? Quels coeurs briserai-je? Quel mensonge dois-je tenir? – Dans quel sang marcher? 
Rimbaud


Quaisquer flores, logo que sejam muitas... 
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas 
Em me dardes muitas flores, 
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço 
Que me deis flores... 
Sejam essas as flores que me deis... 
F. Pessoa


domingo, 17 de março de 2019

murmúrio, exterior

Não se foge do mundo, mas justamente para ele,  a fim de se deter na familiaridade tranquila. A fuga de-cadente para o sentir-se em casa da public-idade foge de não sentir-se em casa.
Heidegger - A disposição fundamental da angústia/ansiedade como abertura privilegiada do Dasein. In: Ser e Tempo I

 

... a recusa da morte, a tentação do eterno, tudo aquilo que conduz os homens a preparar um espaço de permanência. Incansavelmente, nós edificamos o mundo, a fim de que a dissolução secreta seja esquecida em favor dessa coerência de noções e objetos, de relações e de formas, onde o nada não saberia se infiltrar e onde belos nomes - todos os nomes são belos - bastam para nos fazer felizes.
Blanchot - A conversa infinita (adaptado)


Vós sois o sal da terra; mas, se o sal perder o seu sabor, com que se há de salgar?
Mateus 5:13





How do you hide from something you have found?

Do you hear that sound?
That scratching sound?
Is it better to be lost or found?
You can't ignore it
You can't talk it away
You can't drink it away
You can't fuck it away

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

somenos (2)

os doentes não como banidos de um sistema benéfico, mas como fugitivos de um fracasso colossal
Beckett - Murphy


Que contestação produz essa região excluída e abjetada para a hegemonia simbólica, que contestação pode forçar uma rearticulação radical do que qualifica o corpo como corpo que importa, maneiras de viver que contam como “vida”, vidas que vale a pena proteger, vidas pelas quais vale a pena sofrer?
Judith Butler - Bodies that matter


a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém.
Clarice Lispector - A hora da estrela


Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Excepto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Fernando Pessoa - Poesias de Álvaro de Campos



quinta-feira, 1 de setembro de 2016

fome

Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar.
Fernando Pessoa


Ser ainda onde não se é mais
que este "ainda" a viver.
Edmond Jabès - Angoisse d'une seule fin


All our humiliations come from the fact that we cannot bring ourselves to die of hunger
Cioran


O despojamento mal justificado que se ligara àquela vida perdida das Sirtes, o sacrifício consentido em pura perda que ela implicava traziam para mim a garantia de uma obscura compensação. Na sua própria vacuidade, no seu despojamento e na sua regra severa, ela parecia medir e merecer a recompensa de uma emoção mais importante do que tudo o que a vida de festas de Orsenna me oferecera de medíocre e refinado. Aquela vida despojada oferecia-se claramente, na evidência de sua própria inutilidade, a algo que fosse enfim digno de aceitá-la; desdenhosa dos apoios vulgares e como que aventurando-se em falso sobre a boca de um abismo, ela exigia uma escora proporcional ao seu impulso para o vazio. Seu encanto desolado era o mesmo que frustra a expectativa de uma sentinela; suas antenas levantadas, insensíveis aos eflúvios repousantes da terra, eram como que a súplica de um sopro do alto mar; seu grito de vigia, apelo de um eco já em potencial na suspensão extrema do ouvido que ele provocava.
Julien Gracq - O litoral das Sirtes



[...] como se a totalidade objetiva não preenchesse a verdadeira medida do ser [...]. Nenhuma viagem, nenhuma mudança de clima e de decoração saberiam satisfazer o Desejo que tende [a alhures e ao outro]. O Outro desejado não é como o pão que como, como o país que habito, como a paisagem que contemplo [...]. [...] Desejo de um país onde nós não nascemos. De um país estrangeiro a toda natureza [...] e para onde nós não nos transportaríamos jamais. [...] Ao Desejo, o Desejado não o completa, mas o escava. [...] O Desejo é desejo do absolutamente Outro. Fora da fome que se satisfaz, da sede que se sacia e do sentido que se apazigua, deseja o Outro para além das satisfações, sem que ao corpo seja possível um gesto que diminua o anseio, sem que seja possível ao corpo esboçar uma carícia, nem inventar carícia nova. Desejo sem satisfação que, precisamente, ouve o distanciamento, a outridade e a exterioridade do Outro. (tradução e grifo meus)
Lévinas - Totalité et Infini


And i forget 
just why I taste 
oh, yeah, I guess it makes me smile 
I find it hard, it’s hard to find
 well, whatever, nevermind…