sábado, 31 de outubro de 2020

frio (3)

dai-me flores
quaisquer flores
à solidão de se viver entre obras amenas
por cima das quais o pulso continua,
sobrevive à fraca sutura
de gestos gastos
  
sejam essas as flores que me deis
à altura que me separa 
de desenhos que não desejo mais fazer
 
às bocas preteridas,
em nome de quem me retiro destas cadeiras para sempre
 
mas então,
que hei de viver,
se a terra fresca 
e o corpo vermelho
jazem atrás de dias gastos?
 
dai-me flores,
logo que sejam amplas
com que fazer o tamanho do viver

 


What’s in the brain that ink may character
Which hath not figured to thee my true spirit?
What’s new to speak, what new to register,
That may express my love or thy dear merit?
Nothing, sweet boy; but yet, like prayers divine,
I must each day say o’er the very same,
Counting no old thing old, thou mine, I thine,
Even as when first I hallow’d thy fair name.
[...]
Shakespeare


... le pur bonheur de passer de la nuit de la possibilité au jour de la présence.
Blanchot - La part du feu


À qui me louer? Quelle bête fault-il adorer? Quelle sainte image attaque-t-on? Quels coeurs briserai-je? Quel mensonge dois-je tenir? – Dans quel sang marcher? 
Rimbaud


Quaisquer flores, logo que sejam muitas... 
Não, nem sequer muitas flores, falai-me apenas 
Em me dardes muitas flores, 
Nem isso... Escutai-me apenas pacientemente quando vos peço 
Que me deis flores... 
Sejam essas as flores que me deis... 
F. Pessoa


domingo, 17 de março de 2019

murmúrio, exterior

Não se foge do mundo, mas justamente para ele,  a fim de se deter na familiaridade tranquila. A fuga de-cadente para o sentir-se em casa da public-idade foge de não sentir-se em casa.
Heidegger - A disposição fundamental da angústia/ansiedade como abertura privilegiada do Dasein. In: Ser e Tempo I

 

... a recusa da morte, a tentação do eterno, tudo aquilo que conduz os homens a preparar um espaço de permanência. Incansavelmente, nós edificamos o mundo, a fim de que a dissolução secreta seja esquecida em favor dessa coerência de noções e objetos, de relações e de formas, onde o nada não saberia se infiltrar e onde belos nomes - todos os nomes são belos - bastam para nos fazer felizes.
Blanchot - A conversa infinita (adaptado)


Vós sois o sal da terra; mas, se o sal perder o seu sabor, com que se há de salgar?
Mateus 5:13





How do you hide from something you have found?

Do you hear that sound?
That scratching sound?
Is it better to be lost or found?
You can't ignore it
You can't talk it away
You can't drink it away
You can't fuck it away

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

somenos (2)

os doentes não como banidos de um sistema benéfico, mas como fugitivos de um fracasso colossal
Beckett - Murphy


Que contestação produz essa região excluída e abjetada para a hegemonia simbólica, que contestação pode forçar uma rearticulação radical do que qualifica o corpo como corpo que importa, maneiras de viver que contam como “vida”, vidas que vale a pena proteger, vidas pelas quais vale a pena sofrer?
Judith Butler - Bodies that matter


a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém.
Clarice Lispector - A hora da estrela


Meu coração chora
Na sombra dos parques,
Não tem quem o console
Verdadeiramente,
Excepto a própria sombra dos parques
Entrando-me na alma,
Através do pranto.
Fernando Pessoa - Poesias de Álvaro de Campos



quinta-feira, 1 de setembro de 2016

fome

Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser. Tudo o que não é meu, por baixo que seja, teve sempre poesia para mim. Nunca amei senão coisa nenhuma. Nunca desejei senão o que nem podia imaginar.
Fernando Pessoa


Ser ainda onde não se é mais
que este "ainda" a viver.
Edmond Jabès - Angoisse d'une seule fin


All our humiliations come from the fact that we cannot bring ourselves to die of hunger
Cioran


O despojamento mal justificado que se ligara àquela vida perdida das Sirtes, o sacrifício consentido em pura perda que ela implicava traziam para mim a garantia de uma obscura compensação. Na sua própria vacuidade, no seu despojamento e na sua regra severa, ela parecia medir e merecer a recompensa de uma emoção mais importante do que tudo o que a vida de festas de Orsenna me oferecera de medíocre e refinado. Aquela vida despojada oferecia-se claramente, na evidência de sua própria inutilidade, a algo que fosse enfim digno de aceitá-la; desdenhosa dos apoios vulgares e como que aventurando-se em falso sobre a boca de um abismo, ela exigia uma escora proporcional ao seu impulso para o vazio. Seu encanto desolado era o mesmo que frustra a expectativa de uma sentinela; suas antenas levantadas, insensíveis aos eflúvios repousantes da terra, eram como que a súplica de um sopro do alto mar; seu grito de vigia, apelo de um eco já em potencial na suspensão extrema do ouvido que ele provocava.
Julien Gracq - O litoral das Sirtes



[...] como se a totalidade objetiva não preenchesse a verdadeira medida do ser [...]. Nenhuma viagem, nenhuma mudança de clima e de decoração saberiam satisfazer o Desejo que tende [a alhures e ao outro]. O Outro desejado não é como o pão que como, como o país que habito, como a paisagem que contemplo [...]. [...] Desejo de um país onde nós não nascemos. De um país estrangeiro a toda natureza [...] e para onde nós não nos transportaríamos jamais. [...] Ao Desejo, o Desejado não o completa, mas o escava. [...] O Desejo é desejo do absolutamente Outro. Fora da fome que se satisfaz, da sede que se sacia e do sentido que se apazigua, deseja o Outro para além das satisfações, sem que ao corpo seja possível um gesto que diminua o anseio, sem que seja possível ao corpo esboçar uma carícia, nem inventar carícia nova. Desejo sem satisfação que, precisamente, ouve o distanciamento, a outridade e a exterioridade do Outro. (tradução e grifo meus)
Lévinas - Totalité et Infini


And i forget 
just why I taste 
oh, yeah, I guess it makes me smile 
I find it hard, it’s hard to find
 well, whatever, nevermind…

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

somenos

Não há um desejo de se lamentar por aqueles a quem fomos incapazes de amar, um amor que não alcança as "condições de existência"? 
Judith Butler - The Psychic Life of Power

Abre [a porta] a quem não bater em tua porta.
Fernando Pessoa - Poesias Coligidas

Ser insignificante e continuar sendo. E, se uma mão, uma circunstância, uma onda me erguesse e me levasse até o alto, onde reinam o poder e o crédito, eu destruiria o estado de coisas que me fosse favorável e me lançaria no fundo da escuridão baixa e fútil. Só consigo respirar nas regiões inferiores.
Walser - O Instituto Benjamenta

eu sou aquele que qualquer um pode substituir, o não-indispensável por definição e aquele que, no entanto, não pode se dispensar de responder por e para o que não é: uma singularidade de empréstimo e de acaso - aquela do refém, que é, sem consentir, a garantia, não escolhida, de uma promessa que ele não fez, o insubstituível que não detém seu lugar.
[...]
Que outrem não tenha outro sentido senão o recurso infinito que eu lhe devo, que ele seja o chamado ao socorro sem termo [...], me faz desaparecer no movimento infinito do serviço onde eu não sou senão um singular temporário, um simulacro de unidade [...] uma exigência [...] que me excede de todas as maneiras, até me desindividualizar.
[...]
Minha responsabilidade por Outrem supõe uma ruptura tal, que não se distingue senão por uma mudança de estatuto de "eu", uma mudança de tempo e talvez uma mudança de linguagem. Responsabilidade que me retira de minha ordem - talvez de toda ordem - e me descarta do eu (na medida em que eu é o mestre, o poder, o sujeito livre e falante), descobrindo o outro em vez de mim, me permite responder pela ausência, quer dizer, pela impossibilidade de ser responsável, à qual essa responsabilidade sem medida já sempre me jurou, me devotando e me desorientando. (grifos e tradução meus)
Maurice Blanchot - L'Écriture du Désastre

terça-feira, 30 de julho de 2013

cacos

Este aqui fixa, fixa-aposta que renunciei, de que não sei mais do que se trata, toco o em favor do fora, em nome do que não entra, de parte do que resta, quando se destoca o fixo, precioso entulho enquanto espero, no desfechamento de pobres falas, punhados, aparentemente estilhaços, como se, cada vez que te chamo. Como servir-se do último, o aquilo do impróprio, como construir o lar-lá do sepultado, espaço desse improprietário pronominado, aprontado, para o que só havemos o desvio e esquecimento, o que não diz os sinônimos Aqui, Homem, Deus. Volta ao que ainda não, ao ainda que per-dia, abandonado ao ainda. Um muro: então novamente se diz Eu, afinal no entre, no entre-sobre muro e ruína, no disponível-ruína, no caco-possível, caco-prótese, palavra-caco, condição-escombro, coordenada-eles que serve de meio, que media a vida até aqui.
Onde só restam estilhaços, alguém misteriosamente dispõe de coordenadas, reconhece, orienta, consiste, firma, edifica, fica, sólido, sabe, mede, como quem cumpre o mero é claro, o pronto mero, definido definitivo, abandonado ao certo. Quem vem colar cacos em mim? Talvez eu não emita sons, mas cacos deles. Eu que sei dizer que sou cacos só sei dizer que sou seus cacos e, por que, não sei dizer o que aquilo que resta queria dizer, de onde espero receber, também o que só aceitaria não o ter sido, os cacos do firme, do que os senhores e as senhoras combinaram comigo, diário de quem sabe, que não sei o que se fez se faz com, ruína do que fui e deveria, do que me foram, do que eles êem, desde o qual eu, cacos dessas ruínas, cada vez mais ruínas desses cacos, o que posso ser, e com isso, só com isso é que, só daí o buscar no deserto que silencia. É preciso definir esse outro verbo, mas no deserto só corre o adeus, a risada maliciosa – aliás, o silêncio, talvez – que vem socorrer o fixar, o concluir mero, o que por um momento soube. Onde o tudo da senhora e do senhor terminou há muito, onde acabaram os senhores há distâncias, distante o suficiente para não poder lembrar saber vestir ter discernir ser os senhores as senhoras aqui. Obviamente. E é curioso que fale, que não pare? Penso que não, é preciso ainda sempre mais um outro, os senhores certamente mas sabem até certo ponto, a exigência depois disso, enquanto é preciso nem que seja mais outro inferno.
Improprietário excessivamente no fato de não saber sozinho, no fato de sozinho e no de não saber, por isso o eu, o eu apoio, talvez. Que essa distância siga visível não há nada de mais, mas a palavra que resta, a palavra que falaria depois, que também eu excluo a cada vez que lhe dou vez aqui, talvez desde todo começo possível, cada vez que te chamo, o cúmulo do enjoo, da congestão, palavra-passagem que colide contra cada limite-vírgula, impropositada, a qual os senhores e as senhoras não precedem, caminha a dois com a minha estupidez, ou algo assim, toda dificuldade, talvez.
O que seria de todo o lodo daqui não fossem esses ‘o ques’? O que induz fôlego para o fundo, o que sopra pura indigência diverge porque exverge. Finge-se um fundo? Seria mesmo preciso alimentar a vida dessa pergunta? O depois de tudo, este tudo, mito do fundo, engano que acontece depois do tudo, dizem, o que acontece depois do fundo. O tudo depois, o depois do tudo – o tudo que é misteriosamente mero enclave-tudo dos senhores –, quando fala o que falta e os senhores misteriosamente não ouvem e voltam a encontrar o que encontraram, como me encontraram, e eu volto a perder tempo achado neste pronome, eu-eles, dono do meu caso, que perseguem e persigo, me prendo, prenderam, não escapo, estou preso, não importa, curral que arruíno até o mínimo. Então cantemos, Absolve, Absorve o enfim, Palavra, Aborta-se para o que os interrompe. Lá, nem os cacos, que me apoiam, os cacos, é preciso colocar um ‘eles’ ou ‘deles’ sempre ao lado dos cacos, das ruínas, eles me retomam, me acham, eu sei. Sopro do mínimo do pensamento, aproxílaba caindo em direção ao que o aqui fixo vem de outro lugar. Furtivo, subfurtivo, formo-te, transformo-te nesta transitividade, meu fim, meu vocativo, e assim torno a voltar, para revoltar, para exprimir, re-primir a espera. Fala do fim, fala do máximo fim. Não, fala do fim que posso, fala do nosso fim. Não, fala do fim do euvou, do teu voo, do início do chegar, do vaziante, vazante, do que te faz, surpreendentemente raramente, busca inapta para o encontrar, busca do mais atrás, do que era, era do então das ruínas, antes do entulho ser tudo. Falo da minha fala ainda o que não fala, circulo o circuito enquanto o que não circula. Vê o que resiste, como, ouve o que não entra. Averigua minha fala.
Contudo, não ousaria concluir, que é para lá que isso vai. Por isso, um dia em que nem os cacos, mas o que me dispõe em direção ao erro, errar do que ainda é preciso decidir indisponibilizável, indisponibilizado que exige. Sopro do depois, que arranca teus índices, perde-os, deixa-os, assume a ruína deste destino que estás a cumprir, retira-te do firme. Onde eles são ninguém, eis, ninguém é eles. Certamente teria sido menos alguma coisa ter me controlado no primeiro talvez, não para voltar, é claro – e deixar de ser estúpido –, mas, ter ficado nesse talvez, também não sei responder a isso, sem me dignar a berrar, nem tocar no assunto do cansaço, eis o que faria então depois que terminasse aqui.
Experiência do nu, que, cego sem chão, não dispõe de âncora, a boca flui, dejeção irregular na escuridão, desde-sobre ruínas irreconhecidas, entulhos de um irreconhecível monumento, no enquanto disso, boca descoordenada suportada por ruínas-cacos que se chamariam casa, que se chamaria eu, nós.



What can I become given the contemporary order of being?
Foucault

If one wishes to use this word [subject] — why? But why not? — one ought perhaps to speak of a subjectivity without a subject: the wounded space, the hurt of the dying, the already dead body which no one could ever own, or ever say of it, I, my body.
Blanchot - The Writing of the Disaster


... que seja com a linguagem deles, será um começo, um passo rumo ao silêncio, rumo ao fim da loucura, a de ter que falar e não poder, salvo de coisas que não me dizem respeito, que não contam, nas quais não acredito, das quais me entupiram para me impedir de dizer quem eu sou, onde estou, de fazer o que tenho de fazer... Testemunhar por eles, até que eu morra disso, como se pudesse morrer nessa brincadeira, eis o que eles querem que eu faça. Não poder abrir a boca sem os proclamar, a título de congênere, eis a que creem me haver reduzido. Ter colado em mim uma linguagem da qual imaginam que nunca poderei me servir sem me confessar de sua tribo, a bela astúcia. Mas vou dar um jeito nela para eles, na sua algaravia. Da qual nunca entendi nada de resto, não mais do que das histórias que ela carrega, como cachorros mortos. Minha incapacidade de absorção, minha faculdade de esquecimento, eles as subestimam. Querida incompreensão, é graças a ti que deverei ser eu mesmo, por fim.
Beckett- o inominável

terça-feira, 14 de maio de 2013

jogo

They are playing a game. They are playing at not playing a game. If I show them I see they are, I shall break the rules and they will punish me. I must play their game, of not seeing I see the game.
R. D. Laing - knots


En définitive, c'est toujours la société qui se paie elle-même de la fausse monnaie de son rêve.
Mauss; Hubert - esquisse d’une théorie générale de la magie



People and things ask nothing better than to play, certain animals too.
Beckett - Malone Dies



Não existe jogo sem regra.
Bourdieu



A illusio é estar preso ao jogo, preso pelo jogo, acreditar que o jogo vale a pena ou, para dizê-lo de maneira mais simples, que vale a pena jogar. (...) Interesse é ‘estar em’, participar, admitir, portanto, que o jogo merece ser jogado e que os alvos engendrados no e pelo fato de jogar merecem ser perseguidos; é reconhecer o jogo e reconhecer os alvos.
Bourdieu - razões práticas






The bats are in the belfry
the dew is on the moor
where are the arms that held me
and pledged her love before
and pledged her love before

It's such a sad old feeling
the fields are soft and green
it's memories that I'm stealing
but you're innocent when you dream
when you dream
you're innocent when you dream

I made a golden promise
that we would never part
I gave my love a locket
and then I broke her heart
and then I broke her heart

Running through the graveyard
we laughed my friends and I
we swore we'd be together
until the day we died
until the day we died